terça-feira, 19 de novembro de 2013

Viagem Fantástica do Corpo Humano: o incrível processo do Nascimento até a morte

Através deste documentário  o Doutor Drauzio Varella conta como funciona o incrível processo do Nascimento ate á morte, ele nos conduz a uma viagem diferente e emocionante: uma “Viagem Fantástica”. Mas ninguém melhor do que o próprio doutor Drauzio para nos explicar que viagem é essa.
Vamos embarcar em uma jornada maravilhosa ao longo da vida humana, do nascimento à morte. Com a ajuda da tecnologia mais avançada, será uma viagem contada a partir de uma perspectiva única, nas profundezas do corpo humano. Não será a história de uma vida, mas de todas as nossas vidas.

sábado, 16 de novembro de 2013

Muito além do peso - documentário sobre obesidade infantil

 
 
 ”Um filme obrigatório para qualquer pessoa que se importe com a saúde das nossas crianças” - Jamie Oliver, chef britânico e apresentador de TV
 
Pela primeira vez na história da humanidade, crianças apresentam sintomas e doenças de adultos. Não é raro encontrar nos consultórios meninos com problemas coronários, deficiência respiratória, depressão e diabetes. E o mais preocupante é que todas essas patologias têm sua origem relacionada ao excesso de peso.

Esse cenário levou a diretora e roteirista Estela Renner a fazer o filme Muito Além do Peso. O documentário pretende mostrar o impacto negativo da obesidade na infância – no Brasil já são 33,5% de crianças com sobrepeso – e tenta buscar soluções para um dos maiores problemas de saúde pública no mundo.
Em cerca de 1 hora e 20 minutos, Estela conta histórias reais e alarmantes de famílias cujas crianças estão com excesso de peso. A diretora, que correu o Brasil de Norte a Sul, entrevistou personagens de todas as classes sociais – mostrando que esta é uma questão generalizada – e colheu depoimentos de especialistas brasileiros e estrangeiros.
Logo no início, o documentário revela a distância existente entre o universo infantil e a alimentação saudável. A partir de um teste de adivinhação, a diretora comprova que nossas crianças não sabem reconhecer uma fruta, legume ou verdura. “Você sabe que fruta é essa?”, pergunta Estela ao mostrar uma nectarina a um garoto. Manga, responde ele. Em outro exemplo, um menino chega a confundir um pimentão com um abacate.
A diretora da School Food Project, Ann Cooper, uma das entrevistadas no filme, defende, como solução para essa lacuna, a promoção de ações educativas nas instituições de ensino infantis. “Não usamos álgebra, nem ciências diversas vezes ao dia, mas o que fazemos várias vezes ao dia durante toda nossa vida é comer. Por isso, a alimentação deve ser assunto tão importante nas escolas quanto matemática, ciência e outras matérias”, afirma.
Mas a mudança no processo educacional defendido por Ann é apenas uma das frentes de atuação necessárias. O filme deixa claro que a discussão sobre o combate à obesidade infantil é ampla e evolve uma complexa dinâmica entre pais, escolas, governo e indústria.
Um dos mais assombrosos dados relatados pela diretora, por exemplo, é o consumo desenfreado de refrigerantes, ora responsabilidade da família que não impõe limites para o consumo do produto, ora culpa das indústrias e sua publicidade arrebatadora. “E se eu te contar que uma latinha de refrigerante tem o equivalente a 7 saquinhos de açúcar”, diz a diretora a um pai. Essa informação torna-se ainda mais alarmante quando o filme mostra que 56% das mães brasileiras dão refrigerante nas mamadeiras a crianças com menos de 1 ano.
Pela gravidade do problema e o didatismo da obra, assistir ao documentário deve ser programa obrigatório de todas as famílias e instituições que se preocupam com a saúde e com o futuro das crianças. O filme pode ser assistido gratuitamente no site: www.muitoalemdopeso.com.br
 
 Abílio Diniz

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Saber Ciências, direito e dever

Luis Carlos de Menezes 



"Cabe à escola transcender a cultura de consumo tecnológico e promover uma cultura científica prática, ética e crítica."

Vivemos numa época em que tudo depende do conhecimento científico. Dos alimentos às roupas, dos medicamentos aos transportes, da comunicação ao entretenimento, tudo passa pelas Ciências e pelas tecnologias a elas associadas. Fundadas em argumentos lógicos e verificações experimentais, elas nos permitiram superar um tempo de mitos e crendices, cuja graça lembramos em velhos rituais, mas cujas desgraças não queremos reviver em privações e pestes. 

Por isso, na Educação escolar, as Ciências devem ser pensadas como um equipamento essencial à vida e não como uma admiração passiva da "Ciência dos cientistas". Quem desconhece a radiação que aciona, a fibra que veste, a proteína que come e o analgésico que toma também não sabe quando a vida surgiu e como evoluiu ou que a estrela-dalva é o planeta Vênus, cuja luz refletida nos alcança em minutos, enquanto o brilho da estrela mais próxima leva anos para chegar aqui. Também desconhece que as Ciências não são feitas de verdades eternas. Por dependerem do permanente direito à dúvida, são adversárias de sectarismos, superstições e preconceitos.

As crianças e os jovens precisam ser apresentados ao mundo - que já encontram tão complexo - e essa introdução é incompleta sem as Ciências. Mas como ensinar, em poucos anos, saberes conseguidos em séculos? E como pode um professor fazer isso se ele mesmo reconhece suas limitações?  

 Comecemos por assegurar que bons professores não precisam ter todas as respostas, mas estimular, acolher e encaminhar todas as perguntas. Claro que também é preciso ensinar. Mas o quê, e com que ênfase? A escola pode e deve apresentar seus alunos às Ciências como linguagem, como instrumental prático e como visão de mundo, dando um tratamento diferente a essas três dimensões em cada etapa da formação.

Na Educação Infantil, as crianças começam a denominar e a qualificar objetos e processos de vivência imediata - nessa fase, a investigação também é lúdica. O corpo, os bichos, os veículos, as florestas, os rios e as ruas são personagens e cenários de suas fantasias, seus desenhos e seus textos. Os pequenos colecionam e classificam folhas, insetos e parafusos e começam a estabelecer conexões causais e práticas. Para que serve a higiene? Por que os pássaros fazem ninhos? Qual a relação entre nuvens e chuva?

Já a compreensão de ciclos naturais e seu aproveitamento energético, de equipamentos mecânicos e eletrônicos e sua forma operativa e de matérias-primas e processos produtivos exige maturidade maior - assim como o entendimento mais amplo da sexualidade só faz sentido ao se aproximar a puberdade, numa combinação de aspectos afetivos e éticos com os científicos.

Finalmente, quando os adolescentes se preparam para o mundo dos adultos, pode-se apresentar as Ciências com estrutura mais formal: as tecnologias de forma mais abstrata, as substâncias decompostas em elementos da tabela periódica, o Universo descortinado em galáxias se afastando e as espécies como um processo evolutivo, em que a biodiversidade é ameaçada pela intervenção humana reforçada pelas Ciências, mas ao mesmo tempo também vigiada por elas.

Por serem tão significativas na aventura humana, é indiscutível que as Ciências e suas técnicas devem ter presença garantida na formação escolar, ao lado das letras, das humanidades e das artes. Os jovens utilizam com naturalidade equipamentos de alta tecnologia e acompanham noticiários sobre avanços nas fronteiras do conhecimento. A escola pode ir além. Cabe a ela transcender essa cultura de consumo, de produtos ou de informação, promovendo uma cultura científica prática, ética e crítica. Quando isso acontece, também os professores se beneficiam e seguem aprendendo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O aprendizado do trabalho em grupo

Luis Carlos de Menezes
 
O professor pode ensinar a turma a cooperar, escolher e decidir ao mesmo tempo em que dá conta dos conteúdos das disciplinas.  
 
"Para promover a autonomia, é preciso propor à classe atividades coletivas mais estruturadas do que as aulas expositivas."

Na família e na vida profissional e social, é preciso saber se expressar, consultar, questionar, fazer planos, tomar decisões, estabelecer compromissos e partilhar tarefas. Essas ações, envolvendo aspectos práticos, éticos e estéticos, podem ser relativamente simples, como é o caso de escolher o que preparar para uma refeição ou um trajeto. Outras vezes, são complexas, como estabelecer prioridades num orçamento e atribuir responsabilidades na realização de um projeto. Na escola, atividades em grupo qualificariam para desafios como esses, tão necessários na vida social. Mas isso frequentemente esbarra em obstáculos.

Quem acha que o papel do professor é só "passar" conhecimentos talvez veja a aprendizagem ativa e interativa como um devaneio teórico ou como ilusões de certas propostas pedagógicas. Isso, na prática, reduz o ensino à instrução individual em massa, quando as classes não são coletivos de trabalho cooperativo. Essa visão leva a uma prática em que só o professor tem a palavra e a interação dos estudantes é desprezada. Por isso, as turmas são simplesmente reunidas - não se pensa em construí-las. Atitudes dessa natureza, aliás, têm o respaldo de famílias que veem um convite à diversão quando se abre espaço à participação dos filhos.

Já quem reconhece a importância dessa participação ativa e interativa e se dispõe a promovê-la em situações reais enfrenta bem o desafio de colocá-la em prática mesmo em classes numerosas. Para promover a autonomia, não bastam materiais didáticos e um professor protagonista. É preciso propor à classe atividades coletivas mais estruturadas do que as aulas expositivas, pois todos devem estar motivados e conscientes do sentido delas.

Para isso, cabe ao professor atuar com seus colegas e com a coordenação pedagógica, aliás, com a mesma dinâmica que pretende propor em sala de aula. Além de se perguntar "de que forma a atividade em grupo melhora o ensino da minha disciplina?", é necessário formular outra: "De que forma minha disciplina pode promover nos grupos a aprendizagem cooperativa?" Sim, é possível também ter a disciplina a serviço dessa formação coletiva e não apenas o inverso. Com isso, tem-se o foco na aprendizagem e no desenvolvimento da turma, não somente no ensino de conteúdos.

É claro que nem tudo deve ser feito de forma coletiva, pois são igualmente essenciais a exposição do professor e tarefas individuais de crianças e jovens, mas é preciso compor esses momentos articulando com coerência as ações pessoais e coletivas. Essa construção conceitual e afetiva depende do trabalho em grupo, em que se desenvolvem afinidade e confiança, identificam-se potencialidades e aprende-se com os demais. Com a diversificação do planejamento, são contempladas as diferentes necessidades e propensões dos alunos. Não só na rede pública, mas especialmente nela, os mais beneficiados por essa construção são os que vêm de contexto cultural limitado, sem outras oportunidades que não as da escola para a sua emancipação.

As boas escolas desenvolvem práticas apropriadas a cada faixa etária. Isso porque é bem diferente desenvolver conteúdos de instrução em atividades cooperativas se for uma classe de alfabetização com professora única ou se for uma sala de adolescentes com vários professores de disciplinas. Mas a prática faz sentido desde a Educação Infantil até a pós-graduação. Aliás, logo mais estarei com quase 40 mestrandos, que não esperam minha chegada para começar a aula. Já estarão discutindo as leituras da semana em seus grupos de referência. Atitudes semelhantes podem ser encontradas em diferentes cursos, famílias e empresas, mas sempre em coletivos que valorizem a autonomia e a cooperação.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Texto para reflexão: Milho de Pipoca (Rubem Alves)


 
 O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
“Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.”

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.

Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que esta sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.

Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras, a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.

Extraído do livro “O amor que acende a lua”, de Rubem Alves.

Você é milho de pipoca ou piruá?

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O que é protagonismo juvenil? Por que a participação social dos jovens? O papel do educador.

Por Branca Sylvia Brener, psicóloga, psicodramatista e mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC-SP)
 
Protagonismo Juvenil
A palavra protagonismo vem de “protos”, que em latim significa principal, o primeiro, e de “agonistes”, que quer dizer lutador, competidor. Este termo, muito utilizado pelo teatro para definir o personagem principal de uma encenação, foi incorporado à Educação por Antonio Carlos Gomes da Costa, educador mineiro que desenvolveu uma nova prática educativa com jovens.
Dentro da idéia de protagonismo juvenil proposta por Gomes da Costa, o jovem é tomado como elemento central da prática educativa, que participa de todas as fases desta prática, desde a elaboração, execução até a avaliação das ações propostas. A idéia é que o protagonismo juvenil possa estimular a participação social dos jovens, contribuindo não apenas com o desenvolvimento pessoal dos jovens atingidos, mas com o desenvolvimento das comunidades em que os jovens estão inseridos. Dessa forma, segundo o educador, o protagonismo juvenil contribui para a formação de pessoas mais autônomas e comprometidas socialmente, com valores de solidariedade e respeito mais incorporados, o que contribui para uma proposta de transformação social.
“Protagonismo juvenil é a participação do adolescente em atividade que extrapolam os âmbitos de seus interesses individuais e familiares e que podem ter como espaço a escola, os diversos âmbitos da vida comunitária; igrejas, clubes, associações e até mesmo a sociedade em sentido mais amplo, através de campanhas, movimentos e outras formas de mobilização que transcendem os limites de seu entorno sócio- comunitário ” (Costa, 1996:90)
Antonio Carlos Gomes da Costa acredita que toda Educação deva levar em conta duas perguntas básicas: Que tipo de homem se pretende formar e que tipo de sociedade pretendemos construir? A primeira questão ele responde a partir da reflexão sobre as principais características do século XX, em que o mundo capitalista desenvolveu um homem excessivamente autônomo e pouco solidário tendo o mundo socialista desenvolvido o contrário.
Assim, ele acredita que, com as principais mudanças do mundo atual, entre elas o final da separação entre os mundos capitalista e socialista, nosso desafio seja exatamente formar um homem solidário e autônomo simultaneamente; que seja capaz de apreender as novas linguagens que surgem diariamente e ganhar espaços no disputado mercado de trabalho ao mesmo tempo em que possa dar conta das terríveis conseqüências da globalização, como a desigualdade e a exclusão social.
Para a formação deste homem autônomo e solidário, Antonio Carlos parte de uma concepção de Educação que está de acordo tanto com a Constituição de 1988 como com a LDB de 1996 .Ele parte do artigo 205 da Constituição Federal que diz:
“A educação é um direito de todos, dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade civil, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
E do artigo 1o, da Lei 9394/96, LDB, que diz:
“A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nos movimentos culturais”
Para responder a questão sobre qual tipo de sociedade pretendemos construir, o educador recorre ao artigo 3o da Constituição Federal:
“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I- Construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II- Garantir o desenvolvimento nacional;
III- Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV- Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Assim, a concepção de Educação contida na proposta de protagonismo juvenil deve ser entendida de forma abrangente, não podendo limitar-se à Educação escolar, mas incluindo outros aspectos que possam auxiliar os jovens no exercício da vida pública, como o desenvolvimento pessoal, profissional, as relações sociais e o trato com as questões do bem-comum. Ao mesmo tempo os espaços educacionais devem ser compreendidos como múltiplos, ultrapassando os muros das escolas e atingindo outros espaços de referência, como organizações sociais, movimentos sociais, etc...
O protagonismo juvenil deve priorizar a intervenção comunitária, procurando,com a ação concreta dos jovens, contribuir para uma sociedade mais justa, a partir da incorporação de valores democráticos e participativos por parte dos jovens e da vivência do diálogo, da negociação e da convivência com as diferenças sociais. Assim, o protagonismo juvenil pressupõe sempre um compromisso com a democracia.
Entretanto, para que se desenvolva o protagonismo juvenil é necessário desenvolver um novo tipo de relacionamento entre jovens e adultos, em que o adulto deixa de ser um transmissor de conhecimentos para ser um colaborador e um parceiro do jovem na descoberta de novos conhecimentos e na ação comunitária.
Para que isso aconteça, é necessário, no entanto, que haja uma mudança na visão do educando, em que este possa ser visto como fonte de iniciativa, fonte de liberdade e de compromisso. Isso quer dizer que os jovens devem ser estimulados a tomarem iniciativa dos projetos a serem desenvolvidos, ao mesmo tempo em que devem vivenciar possibilidades de escolha e de responsabilidades.
O desenvolvimento do Protagonismo Juvenil, dessa forma,está de acordo com as disposições contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que crianças e adolescentes são entendidos como “sujeitos de direitos”, ou seja, devem estar no centro das políticas de atenção para este segmento.
Isso pressupõe uma concepção muito positiva de juventude, em que os jovens possam ser enxergados como detentores de potencial de ação e transformação sociais muito fortes, passando a ser agentes do processo educacional e não meros receptores de conhecimentos e de propostas pré-definidas:
“O protagonismo juvenil parte do pressuposto de que o que os adolescentes pensam, dizem e fazem pode transcender os limites do seu entorno pessoal e familiar e influir no curso dos acontecimentos da vida comunitária e social mais ampla. Em outras palavras, o protagonismo juvenil é uma forma de reconhecer que a participação dos adolescentes pode gerar mudanças decisivas na realidade social, ambiental, cultural e política onde estão inseridos. Nesse sentido, participar para o adolescente é envolver-se em processos de discussão, decisão, desenho e execução de ações, visando, através do seu envolvimento na solução de problemas reais, desenvolver o seu potencial criativo e a sua força transformadora. Assim, o protagonismo juvenil, tanto como um direito, é um dever dos adolescentes” (Costa,1996:65).
Por que a participação social dos jovens?
Nesse sentido, seria função do processo educativo criar oportunidades que pudessem garantir aos jovens uma vivência e um aprendizado das questões do mundo adulto, proporcionando o fortalecimento de um autoconceito positivo, a formação de vínculos saudáveis e o desenvolvimento de potencialidades e talentos, o que ao mesmo tempo em que favoreceria os próprios jovens, contribuiria com a construção de uma sociedade menos violenta e desigual. Além disso, Antonio Carlos Gomes da Costa acredita que o envolvimento dos jovens em projetos sociais e comunitários possa auxiliá-los na criação de projetos de vida, elemento fundamental para o desenvolvimento pessoal e social dos jovens.
A participação social dos jovens não é um elemento novo na história brasileira, tendo se desenvolvido de acordo com o contexto histórico e econômico a que estivemos submetidos. A juventude dos anos 60 e 70 ficou notadamente conhecida pela sua participação social e política, que teve nos estudantes seus principais protagonistas, os quais tomavam as ruas para manifestar o descontentamento não apenas com as questões estudantis da época, mas com questões nacionais e mundiais.
A esta época, “política” era um termo aplicado quase totalmente aos partidos políticos e as relações sociais eram fortemente hierarquizadas, fruto do regime autoritário vigente no país. Além disso, a juventude estudantil era uma juventude vinda de extratos sociais mais favorecidos socialmente, justamente aqueles que tinham acesso ao ensino universitário da época.
Justamente esta juventude foi considerada como modelo de participação social e foi a partir desta geração de jovens que se descobriu o potencial transformador presente na condição juvenil. As gerações que se seguiram foram sempre comparadas às gerações de 60/70, como se nunca mais aparecesse na História uma geração de jovens capaz de propor um modelo novo de sociedade, tendo sido entendidas como despolitizadas ou apáticas.
Ocorre que as juventudes dos anos 80 e 90 foram criadas em ambientes que de forma alguma estimularam a politização e a participação dos jovens, ao mesmo tempo em que foram bombardeadas pelos meios de comunicação de massa em direção ao consumo e ao individualismo. Isso quer dizer que se os jovens desta geração nos parecem indiferentes, é porque houve todo um processo educativo que contribuiu para isso.
Entretanto, os tempos mudaram e novas juventudes, mais especificamente a juventude pobre, ganham voz na vida pública com o processo de redemocratização do país, ao mesmo tempo em que uma nova concepção de política é desenvolvida a partir da ampliação do que possa vir a ser o “público” e o “privado”.
Assim, hoje, o que é “público” é o que está a serviço de todos e as responsabilidades do que é público não são mais apenas do Estado, sendo divididas com a sociedade civil. Assim, criam-se novas formas de participação política, entendida aqui como “habilidade no trato das relações humanas com vistas à obtenção dos resultados desejados” (Aurélio) e a partir da constituição de 1988 torna-se possível também se expressar politicamente a partir dos diferentes Conselhos ligados às políticas públicas e nas próprias instituições públicas, como Por Exemplo a Escola.
Isso mostra, na verdade, que é possível.
Assim, promover a participação dos jovens a partir do protagonismo juvenil é também facilitar o acesso do jovem aos novos espaços de participação social e política, resgatando o elemento transformador inerente à condição juvenil e canalizando-o para uma atuação saudável.
O desenvolvimento do protagonismo juvenil, de acordo com Antonio Carlos Gomes da Costa, diferencia-se do protagonismo juvenil de outras épocas principalmente em função de que na proposta do educador, as idéias e iniciativas devam ser sempre oriundas dos próprios jovens, o que em outras épocas foi determinado pelos adultos em ideários já pré-definidos dentro dos partidos políticos.
O papel do educador
O educador, dentro da proposta de desenvolvimento do protagonismo juvenil, deve ceder seu espaço “cênico” ao jovem, passando a ter uma função de “bastidor” ou de suporte. Isso, de forma alguma significa abandonar a função educativa, mas ao contrário, significa colocar os jovens em posição de destaque no que diz respeito aos processos decisórios, adotando uma postura de apoio e colaboração. Isso requer uma presença constante junto aos jovens, numa posição diferente à posição do educador tradicional, estabelecendo uma relação mais “horizontal” junto aos jovens sem, contudo, perder o seu papel de educador.
Uma relação mais “horizontal” entre educador e educando pressupõe estar de acordo com o contexto atual, em que não são mais toleradas as formas hierárquicas dentro e fora das instituições, que tiveram origem em períodos de repressão e ditadura. Vivemos, ao contrário, um momento de abertura à diversidade e ao diálogo, em que o respeito às diferenças e a busca do bem comum são agora valorizados e estimulados.
O papel do educador, desta forma, se constitui numa função chave do desenvolvimento do protagonismo juvenil, à medida que tem a intenção clara de desenvolver a autonomia dos jovens. Nesse sentido, todas as suas ações e estratégias devem estar direcionadas para uma resposta autônoma e criativa por parte dos jovens, evitando aquelas ações e estratégias que promovam a dependência ou a acomodação.
Nesse sentido, Antonio Carlos Gomes da Costa desenvolve um quadro com etapas da relação educador/educando que devem progressivamente caminhar da relação de dependência para uma relação de autonomia, passando neste percurso, por atitudes que promovam a colaboração entre jovens e adultos:
Etapas de desenvolvimento de uma açãoDependênciaColaboraçãoAutonomia
Iniciativa da açãoIniciativa unilateral do educadorDiscussão conjunta sobre assumir ou não uma iniciativaIniciativa parte dos jovens
Planejamento da açãoO educador planeja sozinhoPlanejamento em conjuntoOs jovens planejam sem o educador o que será realizado
Execução da açãoO educador executa e o jovem recebe a açãoEducadores e jovens executam juntos a ação planejadaOs jovens executam sozinhos o que foi planejado
Avaliação da açãoOs educadores avaliam os jovensEducadores e jovens discutem o que e como avaliar a ação realizadaOs próprios jovens avaliam a ação realizada
Apropriação dos resultadosOs resultados são apropriados pelo educadorEducador e jovens compartilham os resultados da ação desenvolvidaOs jovens se apropriam dos resultados e respondem pelas conseqüências da ação
Assim, percebemos que o papel do educador no desenvolvimento do protagonismo juvenil tem um método e uma direção muito claros, que devem proporcionar a autonomia e a liberdade de escolha dos jovens de maneira gradativa a partir das atitudes e atividades planejadas e propostas:
“Além do compromisso ético, a opção pelo desenvolvimento de propostas, que tenham por base o protagonismo juvenil, exige do educador uma clara vontade política da sua parte, no sentido de contribuir- através do seu trabalho- para a construção de uma sociedade, que respeite os direitos de cidadania e aumente progressivamente os níveis de participação de sua população”. (Costa, 1996:115)
Além disso, é importante ressaltar que o protagonismo juvenil não é militância partidária nem tampouco uma ação educativa a cargo do próprio educando, mas antes de tudo é um processo que pretende facilitar a inserção dos jovens no mundo adulto a partir do exercício da participação social dentro dos espaços a que os jovens pertencem.
Para tanto, é função central do educador auxiliar os jovens no reconhecimento desses espaços, favorecendo uma reflexão crítica a respeito do funcionamento e das possibilidades de atuação dentro dos mesmos.
Bibliografia
COSTA, Antonio C. Gomes da. Mais que uma lei. São Paulo, Instituto Ayrton Senna, 1997. 
COSTA, Antonio Carlos Gomes da. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática. Salvador, Fundação Odebrecht, 2000.